terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Pedras do Mundo

Escalámos de mãos dadas a parede que separava o mundo do Mundo. Já cheirava a doce, a mel, a pele, e o meu nariz guiava-me de olhos cerrados e narinas arregaladas. Um fio de fumo fininho penetrava até os poros das pedras da calçada que se engasgavam de amor e espirravam beijos. Não eram só pedras, eram as Pedras do Mundo, aquelas que dormem escondidas debaixo da almofada e que de manhã fogem aflitas com medo do monstro da janela. Aqui as paredes não existem, todos veêm, os corpos não têm estrutura táctil mas existem mais que em qualquer outro lugar, a força que emanam chega para se sentirem sem que saibam da sua própria existência, sem que em algum instante se tenham visto, ouvido, sentido, tocado. Basta a vontade para que o refelxo se manifeste sem que exista um pré-gesto, uma acção, um esforço... basta a sensação, a imaginação... Tudo acontece no Mundo.
"Posso agora largar-te a mão?" - perguntei.... não precisas dela num outro dia, aqui ouves-me quando te chamo sem voz, quando te sinto na ausência, quando possa o engano dizer que não estás. Não minto quando falo deste Mundo, ele existe para quem o encontra, e ele ainda é triste, porque pingam nele lentamente seres atentos....mas pingam...quando deveriam ESCORRER!

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

8 mundo à frente

As vezes sinto-te cá dentro, não importa se atrás de mim ou 8 mundos à frente. No final, tudo fica em frente a nós, e tento descobrir se o que vejo é o que olho.
Não te entendo nas entrelinhas do esquecimento enfadonho, não reconheço as palavras que pensas e cruzas com sons que me atacam. Dói. Só na hora. Mas massacra e perdura quando o silêncio prevalece. A estranheza de todos perante duas sementes de frutas tão diferentes, que nem os caroços servem para mastigar, fazem as árvores mais enraizadas mudar de lugar. O azedume da casca é sem duvida o mais doce. Vamos provar.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Nem com um desenho

A seguir a tudo não aconteceu mais nada além da perseguição. Aquele ser incapaz e auto-destrutivo arrastava-se em passadas que o tornavam ainda mais lento e enfadonho, era ímpossivel de o acompanhar de tão perdido que estava de um caminho ou de um ideal. Vivia, no entanto, feliz: não fosse a mais alta estupidez a rainha do império da inércia e da incongruência celestial que respiravam as gentes cobertas por aquela alçada. Muros de burrice impenetráveis... nem desenhos de livros infantis despertam o sobrolho adormecido há quase três décadas de incapacidade cerebral. Esceverei...só para ti...um livro para recém-nascidos, onde espero que mergulhes e voltes a reaprender a viver, ou simplesmente...aprender, será?

Telepatia

Ela já por cá andava há algum tempo. Leve, levezinnha mas persistente. Agravou-se.
Havia uma força que a empurrava contra a rocha, e nem os bicos das conchas partidas a faziam descolar. Toda a casca que a vestia ía aos poucos perdendo a consistência e deixava à tranpsarência a vontade que corroía os nervos do semblante da verdade. Lentidão... a profundidade telepática de um adivinhar de toques que se querem encontrar, perdidos entre nós de cordas de pontas espigadas e cabelos partidos, secos, queimados do sol, quentes...
Se aquela praia fosse deserta, se a sombra fosse mais escura, se as árvores cobrissem os corpos, se o mar subisse e nos cobrisse... cobríamos... Não havia dia nem noite, nem sol nem lua, nem terra nem universo. O mundo estaria cá dentro, no espaço inexistente caberiam os gritos mais longos que já ecoei, e ficavas surdo e entupido de tanto palavras que finalmente faziam sentido. Não estás cansado das palavras vãs, tardes sem proveito, noites sem amor? Não atinjo a realidade em que co-habitas com a estupidez... E tu?

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Suor humano

O orgulho da estupidez fala mais alto que o horizonte e cobre de névoa roxa escura um tecido criado por gente faminta. Haviam quebras de emoção e de imensidão de choro compulsivo emanando gritos ao infinito. Surges no fundo como uma estátua fumegante de giz gasto e estridente que arrepia até ao surdo. Fugiram aflitos, embrulhando-se ao longo dos degraus de pedra calcária, que se esfarelava e desfazia em cores escuras que lhes arranhava o coração. Engasgava-se de sangue e cuspia a dor do embrulho em que se havera envolvido sem perceber que ponta do pé o tinha empurrado. Eram famílias de seres despidos, de tudo, deles mesmos, não tinham nada, um pingo de suor humano acabava com a fome de todos eles. Prendi-te as calças com um lenço de nós de cabelo que teci para ti ao longo das décadas, não se desfez porque nunca se fez e perdeu-se muito antes da neve ter coberto as ervas. Os corvos nadavam em círculos e traziam à superfície os sons mais agoniantes que já eles já tinham ouvido. Tremiam…e temiam pela sua vida mais morta que viva, tristemente acariciada por um acontecimento de tamanha crueldade.

domingo, 20 de maio de 2007

Plástico


Hoje não te senti como queria e não tinha sequer uma réstia da ideia do porquê. Vi-te envolvido numa embalagem de felicidade que me cheirou a plástico em demasia. Penso e espero estar enganada quanto ao material da tal embalagem, sendo que o que me importa na realidade é a água lhe corre pelas entranhas.
Nem sequer consigo ver através dos teus olhos, através mesmo, chegar ao outro lado, ao núcleo, à verdade…raramente me perco neles sem conseguir regressar à realidade. E como gosto quando isso acontece, é uma perca que conduz ao encontro, encontro real e tão surreal porque te expõe a cru sem as entrelinhas plásticas que possas tecer em volta do teu corpo.
Na verdade não espero nada…teimo em não esperar, porque não confio, desconfio do que neste limbo se possa passar. Não quero um equilíbrio numa corda bamba, procuro um sonho em constante desequilíbrio mas que nunca me deixe cair. Uma “perfeição” que existirá algures, não faço ideia onde, mas que hei-de encontrar…se nos teus olhos não for não cessarei de me achar. Acredito demais na felicidade para desistir dela, seja em que circunstância for!

Caixa fora

Não pretendo sequer tentar resistir, a ferrugem que aumenta não me incomoda. O tempo existe realmente, mas como o sentimos é que faz o relógio ganhar movimento, e ele anda e pára sempre que lhe toco com um dedo ou sopro de leve os frágeis ponteiros.
Instintos intemporais não são animais, são humanos e descentrados, alienações de um centro sem epicentro e descontornado por linhas ténues e grossas. Abri a caixa mas só havia espaço, um espaço tão grande onde nem sequer cabes porque és maior…um gigante de ferro gasto e cores cansadas que nem por isso deixam de ser cores!
Cabes-me entre a unha comprida e o pequeno dedo, meto-te na boca sem querer e quase te engulo! Não me engasgo. Escorregas tão bem como papas para bebé. Mandei a caixa fora, tou farta de limites de espaço, de tampas, de lugares fechados e apertados.
O mundo é tão grande que o trinco quando roo a unha do meu dedo polegar, é a que tem mais camadas, a que mais prazer me dá mordiscar!