Acordei deitada numa rede de cordas e peles estranhas. Olhava à volta e não conhecia nada. Teria sido raptada? Estaria ainda a dormir pensando estar acordada? Estaria drogada?
Esfreguei os olhos, belisquei o cérebro, sacudi os membros e pus-me de pé. Andei às voltas durante uns minutos. Era uma comunidade antiga, daquelas a que a civilização ainda não tinha lançado as garras da transformação e da maquinaria.Cabanas estranhamente amontoadas criavam um ambiente místico mas ao mesmo tempo assustador. Sentia-me numa história que nunca me tinha sido contada.Haviam cabanas minúsculas, com portas onde poderiam passar apenas duendes anões, outras de 2 e 3 andares, sem que se percebesse onde começava um e acabava o outro, pois as janelas não coincidiam com a horizontalidade dos pisos.
Confuso, bati à porta dos céus e perguntei: mas que realidade é esta? Onde estou e como vim aqui parar?... Eis que surge uma nuvem que se moldava lentamente numa silhueta feminina, uma voz calma e envolvente sussurrou-me algo ao ouvido… algo que não entendi mas que me fascinou. Senti a seta do cúpido atravessar-me o estômago e a nuvem foi-se tão rápido como havera surgido.
Lá ao longe via-se um pequeno animal que transportava no lombo um homem gigante. Percebi com a crescente proximidade que era um leitão carregando um índio com uma bandeja na mão. A minha confusão tinha virado alucinação: só podia!
O índio aproximou-se e gritou: Se queres comer terás de subir ao 3º andar sem elevador, saltar cá para baixo e levantares-te sem um arranhão!
A fome era tanta que não perdi tempo em pensamentos famintos, subi, nem olhei para baixo e saltei! Resultado: quase morri! Almost beyond the line arrastei-me até aos pés do índio que ria desalmadamente: Querias comer não era? Mas não és merecedor do manjar dos deuses. A prova é que nem levantar-te consegues! Ah pois é! Ahahahahahh!
E numa tentativa de me deixar a salivar abre a tampa da bandeja, pega num rato pelo rabo, devidamente temperado e cozinhado, e literalmente suga-o, deixando apenas aquelas finas costelas à vista de todos!
Naquele instante pensei: quase me matei por isto? Realmente a fome faz-nos fazer coisas incríveis. Percebi imediatamente a facilidade com que os famintos metem a mão no lixo, retiram o papel que já foi de um bolo de chocolate e o lambem com felicidade!